Quando eu entrei naquele ônibus estava morta de cansada. Ele encontrava-se vazio, dava pra contar quantas pessoas tinham naquele momento e eu pude até escolher onde sentar… Lembro de ter ficado alguns minutos vendo a paisagem ao longo do trecho na Avenida Brasil, mas logo depois adormeci.
Acordei depois de uma hora. Estávamos parados num engarrafamento e no ônibus já tinha mais pessoas, algumas, bastante agitadas, outras, chorando e desesperadas… foi aí que me dei conta do ocorrido.
O ônibus tinha sido assaltado enquanto eu dormia e não vi nada.
Abri a bolsa desesperadamente, eu havia sacado o dinheiro que daria à minha mãe e o valor era pra pagar a cirurgia de retirada de um câncer. Eu não tinha de onde tirar mais dinheiro, porque nós duas estávamos desempregadas…
Eu também me desesperei junto aos demais passageiros quando constatei o furto desse valor e de meu celular. Essa cirurgia era a esperança que eu tinha de melhora da saúde de minha mãe. Eu chorei…
O motorista avisou que iríamos todos para a delegacia prestar queixa e abrir um boletim de ocorrência e naquele momento eu só pensava: – Levaram minha esperança! Levaram minha esperança! Levaram minha esperança!
Hoje faz exatamente um ano que tudo isso aconteceu. Confesso que o sentimento é ainda pior. Minha mãe não melhorou seu estado de saúde e está cada vez mais complicada sua condição, mesmo após realizar a cirurgia. Eu até consegui um novo emprego e na parte financeira nossos problemas diminuíram, mas aquele furto no ônibus parece me acompanhar até hoje.
Dentro de mim permanece a tristeza de ver fugir minha esperança, de não saber como a deixei partir. É um mixer de raiva, tristeza, desesperança. Eu me sinto culpada por ter dormido…
Depois desse furto eu sinto cada vez menos vontade de estar por aqui. Penso todos os dias em partir, buscar uma forma de aliviar essa dor. Eu não vejo sentido nesse sofrimento que me acompanha. Eu não sinto esperança na vida.
Nenhum de nossos contos retrata o caso de algum paciente atendido por nós. Trata-se de uma ilustração da vida cotidiana, de histórias que motivam pessoas a procurarem terapia/psicoterapia.
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